Distúrbios em Albufeira eram evitáveis, 16 de Outubro de 2005

O que correu mal em Albufeira, em Junho de 2004, para ter havido arruaças, violência nos bares, esplanadas e ruas, bem como intervenções com mão-de-ferro da força de segurança no terreno? O psicólogo Clifford Stott tem uma explicação, coerente com o tipo de preparação que defende para as grandes concentrações "A GNR não adoptou as mesmas tácticas da PSP e não conseguiu fixar, desde o começo, os limites ao comportamento nem distinguir entre os causadores de distúrbios e os que apenas se encontravam no local". Resultado: "Foram envolvidos mais fãs e deu-se uma escalada". Na interpretação do investigador,"uma actuação policial indiscriminada e de mão pesada tem mais probabilidades de criar um problema que de o resolver, na medida em que ela leva os adeptos a sentirem que a Polícia está a agir mal; assim sendo, eles unem-se contra a Polícia e encaram a violência não como 'hooliganismo', mas como reclamação de direitos". A isto acrescenta Otto Adang, parceiro da pesquisa e que pertence à Academia de Polícia da Holanda, que "as intervenções policiais devem ter apenas como alvo os adeptos cujo comportamento é reprovável e devem ocorrer antes que os acontecimentos fiquem fora de controlo".
Segundo Clifford Stott referiu ao JN, deste estudo pode extrair-se com principal conclusão que "o meio mais eficaz de impedir distúrbios é o de policiar os adeptos através de técnicas pro-activas de baixo impacto, atitude que foi tomada pela PSP". Esse facto, diz ainda, explica a razão pela qual, apesar da presença de centenas de "hooligans", não houve distúrbios. Aqueles terão sentido que a situação estava sob controlo. Para o seu projecto, a equipa de Liverpool treinou 16 observadores da Escola Superior de Polícia e das Universidades do Porto, Coimbra e Lisboa. O trabalho, intitulado "Dinâmica das Multidões, Policiamento e "Hooliganismo" no Euro-2004", implicou também cerca de três centenas de entrevistas a adeptos, agentes policiais portugueses e estrangeiros e responsáveis pela segurança de organismos como a UEFA. Antes e depois do campeonato, foram feitos inquéritos a quase centena e meia de adeptos ingleses. Agora, a equipa de investigadores da Universidade de Liverpool espera que os resultados da sua pesquisa sejam úteis também na preparação da Taça Mundial, no próximo ano, na Alemanha.

(Jornal de Notícias, 16 de Outubro de 2005)