Segurança discreta do Euro cria modelo internacional

PAULO CARRICO / LUSA

No Campeonato Europeu de Futebol, apenas uma vez as autoridades foram forçadas a recorrer a medidas de força excepcionais. A estratégia de segurança usada por Portugal durante o Euro 2004 criou um modelo que pode e deve ser utilizado por outros países. Um estudo elaborado por especialistas em comportamento de massas da Universidade de Liverpool e da Academia de Polícia holandesa, apresentado ontem, em Lisboa, concluiu isso mesmo. O holandês Otto Adang, o inglês Clifford Stott e a alemã Martina Schreiber andaram no terreno, durante o campeonato europeu, em contacto permanente com polícias e adeptos, muitos dos quais entrevistaram. Nas conclusões, constataram que a PSP portuguesa optou por uma intervenção de "low profile", civilista, que criou nos adeptos uma identidade comum e uma propensão para a festa e para a não violência.

Autopoliciamento
Os próprios adeptos adoptaram uma atitude de autopoliciamento, colaborando com as autoridades e denunciando situações. No Euro 2004, não houve incidentes, não porque não estivessem presentes hooligans, nem porque a sorte estivesse do lado português, como hoje, ainda, insistem alguns. Segundo esses três especialistas em comportamentos de massas, que estudaram o caso português e o compararam com o Euro 2000, na Bélgica, tal ficou a dever-se à actuação das forças de segurança. Portugal recorreu, sobretudo à Polícia à paisana, criando alguma descontracção entre os adeptos. Otto Adang disse mesmo que, numa das cidades em que decorreram os jogos, houve um dia em que não estava um único agente fardado. O que também não será aconselhável. A forma como decorreu o Euro deu a Portugal, segundo os especialistas, um enorme prestígio. Os próprios adeptos entrevistados elogiaram a acção da Polícia, considerando os nossos agentes muito prestáveis e simpáticos. Para além disso, alguns dos que assistiram a intervenções da PSP espantaram-se com a eficácia e a rapidez da sua actuação. Martina Schreiber resumiu as opiniões que recolheu junto dos adeptos a uma única frase "Altamente, Portugal!" Os incidentes de Albufeira, na sequência dos quais foram detidos cerca de 50 ingleses, mancham um pouco esse quadro e contrastam com o que se verificou no interior dos estádios. Os especialistas dizem que a falha da GNR, nesse caso, esteve na dificuldade em "exercer uma gestão pró-activa, prévia à desordem" e, durante a desordem, para identificar e deter apenas os desordeiros. "A intervenção foi direccionada à multidão como um todo", criticou Clifford Stott.

O director nacional-adjunto da PSP, presente na apresentação do estudo, disse, aos jornalistas, que a estratégia foi deliberada e pensada previamente. "Optámos por uma intervenção graduada", disse o super intendente Chumbinho. A estratégia passou por fazer um acompanhamento , "amigável e colaborante", dos adeptos desde o momento em que aaterravam em qualquer um dos aeroportos portugueses. Assim foi possível vigiá-los, "gerindo os potenciais criadores de violência", relatou.

Adeptos auto-policiaram-se
Clifford Stott, da Universidade de Liverpool, contou que a estratégia da PSP acabou por criar, entre os adeptos, um clima de não-violência, que os levou mesmo a reprimir atitudes violentas a que assitissem. Foi assim no Rossio, exemplificou, com os milhares de ingleses que ali se acantonaram, na véspera do jogo com a França. Alguém atirou gás para o interior de um autocarro. A multidão foge e invade as ruas; a Polícia tenta controlar o trânsito. Cerca de 30 hooligans preparam-se para defrontar a Polícia e é um adepto inglês quem os detém. "Onde está o vosso orgulho, nós somos ingleses!", disse, fazendo com que os hooligans desistissem e evitando uma escalada de violência. Nessa mesma praça lisboeta, dez dias depois, na véspera do jogo com a Croácia, é um grupo de hooligans que previne a PSP. Adeptos croatas preparavam-se para atacar adeptos ingleses e estes estavam prontíssimos para ripostar. Esse grupo de adeptos pediu à PSP que retirasse os croatas do Rossio. Clifford Scott mostrou mesmo a fotografia de um inglês, que vestia uma t-shirt onde se lia "Eu sou um hooligan pacífico".

Acção rápida e dirigida
No dia 14 de Junho, na Ribeira, no Porto, milhares de adeptos de vários países juntam-se para uma festa. Estavam presentes adeptos alemães e holandeses, cuja rivalidade é conhecida e antiga. De acordo com Martina Schreiber, que presenciou e estudou o comportamento dessa multidão, viam-se poucos agentes fardados. A dada altura, adeptos alemães começam a atirar garrafas contra os adeptos holandeses. Os agentes à paisana presenciaram os incidentes e detiveram imediatamente os alemães.

A festa continuou.
Martina interrogou alguns dos presentes e obteve comentários bastante elogiosos à actuação da PSP. Um alemão disse, por exemplo, que a Polícia alemã "atira fogo para o meio" e não quer saber quem foi o responsável pelo incidente. "Aqui, viram ao certo quem foi e , pimba, braço para trás, dentro do carro, e toca a andar". A especialista também notou como os restantes adeptos na festa se afastaram desse tipo de comportamento, criticando-o. Foi esse clima de festa e de não-violência que a PSP criou e que os especialistas querem ver exportado para os restantes países.